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Textículos

APR
18

Ela definitivamente era um ponto fora da curva. Nessa cidade de mulheres desinteressantes, ela fazia sua presença quase sem querer. Não tinha aquela beleza óbvia das ratinhas de praia, não era uma hippie-chic, muito menos precisava ser freak para chamar a atenção. Ela estava ali com aquele jeitinho peculiar, e isso me bastava.

Levemente bêbada, mas com um charme blasê que era só dela.
Já tinha conversado com ela, e me intrigava o que tinha me chamado tanto a atenção. Ela era bem bonita sim. Parecia bem inteligente também. Bem informada, aparentemente culta. Fez até uma piada ótima, que por sinal mereceu até citação (com os devidos créditos).

Olho ela de novo, tentando não parecer interessado. Ok, deve estar parecendo, mas aparentemente ela está bêbada e entretida com um playboy com cara de surfista. Então olho mais uma vez.

Olho pro meu copo também, e vejo que daquele balde que o barman me serviu só resta o fundinho de água. Adoro esses coquetéis leite-com-pêra. Preciso de um refil. E também um pouco mais de coragem. Lido mal com essas coisas, pelo menos sóbrio.

Vou falar o que?

- "Olha, acho você linda-estilosa-mas-meio-blasê, mas tô com tamanha curiosidade a seu respeito que ...?".

Se for pra dizer algo assim banal, vou precisar de mais umas três doses - pensei com o que me restava bom senso.

Talvez quatro. Mas eu teria que dizer algo a ela, por mais idiota que fosse (e provavelmente seria). Já tinha verbalizado anteriormente, obviamente alcoolizado (o álcool me deixa com sindrome de Tourette aparentemente) que eu creditava à ela o título de "a menina mais estilosa". Devo ter sido terrivelmente brega, mas ainda sim com alguma ternura que só os bêbados que não sabem o que dizer têm.

A idade tá começando a me deixar totalmente intolerante com qualquer tipo de poda ou auto sabotagem. Eu tinha que saber qual o combustível de tamanho interesse. Meu terceiro copo já sorvido pela metade resolvi: foda-se. Eu vou lá.

- Quer dizer então que você nasceu no mesmo dia que eu?

Ela sorriu. E seu sorriso foi como kriptonita.


Texto originalmente publicado no Karma Pesado.


NOV
13

Faz um tempo que me olho no espelho e vejo um semblante cansado. Talvez de sentir. Ontem tocou aquela música que me lembra você. Não, não foi uma daquelas que me lembra o quanto fui otário, e que dá aquela dormência no cotovelo. Foi aquela, que me fez pela primeira vez olhar você e ver a mulher da minha vida, quando eu achava que eu tinha uma. Mas não lembrei a letra. E e solfejo da melodia me fez... cair.

Quis dividir Toblerones no domingo. Quis também alugar um megapack na Estação, e fazer nada como faziamos tão bem. Botar o fone no seu ouvido, e mostrar o quanto é bom o disco novo do Radiohead, só pra ver você fazer aquela cara de que nunca iria admitir. Dizer que a Petrobrás vale mais que a Google, mas que eu continuo falido, e rir disso de um jeito besta, quase recalcado, por trabalhar tanto e continuar no perrengue. Fazer carinho no seu cachorro. Te levar o Nescau pela manhã.

Você fez falta no filme novo do Tarantino, inevitável imaginar você quicando na cadeira em cada cena bizarra (e olha que não foram poucas). Ia te obrigar (fato) a ler Os Supremos, e só descansaria quando você admitisse o quanto é foda. Cortei meu cabelo, e você nem me reconheceu. Mas tudo bem, eu também não consigo mais. Na verdade, percebi que, na chacina capilar que eu cometi, o intento foi de aparar as pontas da minha pessoa. Acho que quando eu ficar careca de vez (o que não tarda) não pensarei mais nisso, pois a metafóra estará perdida (tanto quanto eu agora).

Queria comentar com você aquelas coisas que você fingia gostar de ouvir. E queria fingir que você gostava. Disparar minha metralhadora verborrágica na sua figura, só pra sobrecarregar sua capacidade de compreensão em estados mentalmente comprometidos (voluntariamente). Reclamar do seu decote querendo dizer que na verdade eu achava um tesão em você, mas não acho que, só porque estamos num mundo 2.0, eu deveria compartilhar o seu conteúdo. Queria rir com e do seu irmão mais novo, contar as piadas mais sem graça só pra ver sua cara de inconformada. Queria me conformar.

Não acho justo entrar no mérito físico, acho exposição demais, e você já sabe bem o que eu sinto. Mentir não faz parte do meu repertório limitado de talentos. Mas a saudade daquela chama que ardia em brasa...quisera eu não ter me queimado, pois não teria tal nivelamento, e poderia assim me enganar deliberadamente. E assim pensar, quase que inocente, que isso poderia existir de tal forma sem você...

Tudo foi. E é um pesar sem tamanho que não seja. Queria ser tão legível pra ti quanto é pra mim o que eu sinto. E só então você entenderia, e veria escrito no garrancho que sou ... que ter só você sempre me bastou, que era tudo que eu sempre quis. E de um jeito que nunca quis nada. Mas de querer, a verdade tem é muito pouco de poder. Pedi demais, e recebi demais. Talvez por isso tenhamos deixado cair...

Quebrou.


OCT
17

Por mais que esteja escuro consigo ver. Elas me espreitam. São como lobos: vejo pequenos pares de vagalumes seguindo cada movimento meu. Quase consigo sentir o hálito.

São elas: todas as idéias que eu não consegui realizar.

Não sei se por motivo de vingança, ou pura insistência. Vai ver (quem é que sabe?) só fazem isso pra chamar a minha atenção, mostrar de um jeito macabro que ainda estão ali. Pesar na minha consciência.

Respiro fundo, e assumo a responsabilidade, apesar de todas dificuldades, medos e pequenas tragédias cotidianas. Vou trazer uma a uma à luz. Nem que pra isso tenha que gastar o que me sobra de humano, ou que me falta de recurso.


SEP
23

... me sentindo um idiota
mais do que o habitual
nesses últimos tempos

Será porque isso tudo
era tão previsível?

Gosto amargo na garganta
pesadelos
será que eu estava cego
por enxergar demais?
será que todos os sinais
todos os gritos
de aviso
adiantam
quando
nos fazemos de surdo?

ferida aberta
com gosto de metal
que simplesmente não estanca

tá na hora de acordar.


SEP
05

...no quão conveniente seria um mundo sem palavras.
Talvez sobrassem só "pretexto" e "conveniência", do que um dia já foi uma sopa de letras, pois alguns não viveriam sem elas.

E mesmo sem palavras, as coisas iriam seguir sua natureza. Aquela. Natural. E nem por isso menos triste.

O mais difícil é acordar e ver o quanto tudo é previsível e sempre foi. Um filme cujo final já era conhecidamente triste, o desenrolar desajeitado e os argumentos falhos, e mesmo assim optei por assistir até o final.

Fiquei sozinho na sessão.
Os créditos estão subindo, mas a dor não passa.


AUG
23


Se vai tentar, siga em frente.
Se não, nem comece.
Isso pode significar perder namoradas,
esposas, família, trabalho.
E talvez a cabeça.
Pode significar ficar sem comer por três dias
Pode significar congelar em um parque.
Pode significar cadeia.
Pode significar caçoadas e desolação.
A desolação é o presente.
O resto é uma prova de vossa paciência.
Do quanto realmente quis fazer.
E farei, apesar do menosprezo.
E será melhor do que qualquer coisa
que possa imaginar.
Se for tentar, vá em frente.
Não há outro sentimento como esse.
Ficará sozinho com os deuses.
E as noites serão quentes.
Levará a vida com um sorriso perfeito.
É a única luta que vale a pena.*


- Charles Bukowski

* Será?


AUG
01

Do cheiro. Do gosto. Das risadas. Do corpo.

O vazio que cresce. A abstinência que pertuba.

A cabeça que simplesmente não funciona.


JUL
17

Passei a pensar em soluções na vida. As pessoas que resolviam as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia. Não Chinaski. Ele não fazia cu doce. Alto bordo. Jogador. Meio preguiçoso, talvez. Mas jeitoso.

- Charles Bukowski


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Ivan Neto
Um workaholic maldito vomitando design, ilustração, artes, tecnologia
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Designer e ilustrador. Um paulistano morando no RJ. Diretor de Arte da agência de design cross-media INCOMUM Design & Conceito.

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